sexta-feira, 9 de março de 2012

Era noite na cidade


Uma razão forte para sair mais cedo do trabalho, questão de minutos, é correr para pegar o ônibus para sua residência, que fica bem longe dali. E aí tem o dia em que você rompe a barreira do medo de pedir para ir embora antes da hora. Vez ou outra pode acontecer do seu ônibus não passar. Ele pode ter quebrado, a linha pode ter mudado, ou o motorista não quis apagar o cigarro e levantar da cadeira. Você espera o próximo, já imaginando que ele virá apenas uma hora mais tarde. E a noite avança. Perto das dez da noite você, enfim, nota que a situação não está boa. Passou da hora de ir atrás de uma segunda opção.
Após sair andando no centro da cidade e encontrar pessoas estranhas nesse caminho, você pega um ônibus caro para te levar "daqui ali". Você encontra, então, as pessoas da noite. Aquelas pessoas que trocam os turnos, praticamente. Aquela gente que habita o centro da cidade no fim, término mesmo, da noite. Pessoas que levam vida diferente da sua, que é uma pessoa do dia. Não do sol, mas da luz. Enfim, no horário em que um dia normal você estaria curtindo um "reality" na sua casa, sentado no sofá, você pega um ônibus que, por assim dizer, vai dar a volta ao mundo. E o mundo é longo, como um trajeto longo. Duas crianças, com seus pais ali no transporte, são responsáveis pela sua sensação de tranquilidade. São "o lado bom da coisa". E você consegue sorrir. Nada como um dia após o outro, você poderia pensar. Mas, se esta é a vida de quem não segue rotina, eu diria para você que o mais confortável é saber quando vai estar em casa, é o prazer do horário.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Um mesmo


Você me disse que não mudei nada desde a última vez que nos vimos. E não faz mais de quatro anos que isso aconteceu. Você disse que sou o mesmo garoto, que nem meu peso deve ter mudado. Poderia ser, talvez seja. Se pensa que ainda vejo as coisas como naquela época, na verdade, errou. Minha cabeça mudou muito, pode ter envelhecido até passar da conta, até passar da maturidade que você espera, ou da juventude em que deveria ter parado. Não bebo, não fumo. E você acha estranho. É mais fácil pensar que, por ser diferente, eu sou errado. Não vivo as suas razões, não vivo as suas ansiedades, vivo as minhas, e já me são o bastante. Sou mais do que eu mesmo penso ser, mais do que esperam de mim, mais do que construo. E essa construção trava exatamente por ter que conviver, a cada passo, com julgamentos de alguém que nunca deveria ter se dado o trabalho de pensar sobre isso. Sempre quis que soubessem quem eu sou, mas nunca pensei em responder à expectativas. Quieto, calado, quase estático, quebro regras, como um jovem.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Conto


E eu disse a ela que já tive muita imaginação. Eu disse que criava, inventava, me divertia bastante. Será que pôde acreditar? Contei que tinha um irmão, mas que não tinha. Que tinha alunos, mas que não tinha. Que tinha uma grande empresa, mas que ainda não tinha. O que eu disse para mim? Tem horas que as coisas precisam ser ditas para você mesmo. Ela poderia ter me dito que ainda sou assim, ou que não, mas deveria. Ou talvez não.
Era bom o artesanato, era bom fingir ser outra pessoa, era bom animar o outro estando animado. Era bom me aborrecer e não esconder de ninguém. Faz tão pouco tempo. Algo aconteceu. Ou talvez não. Quem sabe se escrever não é a forma madura de ser o mesmo que narro aqui?
A figura da criança é espetacular, e eu não disse isso a ela. Um pequeno que se comunica pode ser tudo. Só que um caminho precisa ser percorrido. E aí tem que se acertar a porta, ou, o mais importante, saber achar a saída se a entrada não era exatamente aquela. Ou era?

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Lá fora


Para o homem e a mulher de roupa colorida
Para quem sabe coordenar os passos
Para quem espera dias e dias
Para quem quer que o ano comece
Também há razão para o que vê diferente
Para quem trabalha de várias formas
Para quem dorme cedo
Para quem não consegue uma paz ao dormir
Para quem faz poesia
Para quem vive poesia
Há quem cante, quem sambe, quem mira
É tempo de carnaval lá fora

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Folia


Não se engane
Que os momentos que parecem incríveis
Devem ser repetidos
Na verdade devem acontecer cada vez mais
Mas de formas diferentes
Em uma interessante novidade a cada ocasião
Não pense que fez tudo certo
Que não fez nada
Valorize momentos
Troque a conversa do dia pelo clima da noite
Troque o que você pensa e quer dizer
Por aquilo que os outros tem a dizer
Não precisa falar pouco
Fale, vá, seja, viva, compartilhe
É quando você nota o quanto a rotina pode limitar

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O outro


Você que sabe tudo que pretendo
Você que fecha meus olhos
Quem me faz refletir
Você que faz parecer que estou no lugar errado
Quem me conhece tanto que não explica como
Você com quem não pretendo parecer
Você que me faz observar tudo
Um olhar de criticidade para cada relação
Você que complica tudo
Quem não se contenta com pouco
Quem valoriza o detalhe
Quem sonha alto mostrando o mínimo
Você que limita, avalia, põe de lado
Você que sou eu.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Peças que



Paulo ouviu de um grande amigo que amizade é algo que não se entende. Não é possível compreender a saudade quando a outra pessoa te deixa cedo, quando o dia ainda tinha muito o que oferecer. É difícil a lógica do melhor amigo, daquele que sabe tudo sobre você, daquele em quem você deposita toda uma confiança que não tem em si mesmo.
Paulo conheceu muita gente, vive a vida, mas não sabe a quem pertence. É como ser amigo de muitos, mas irmão de poucos. Como ser colega de muitos, e amigo, mas de poucos. Amigo de um ou outro. Não sabe quem é quem.
É possível reconhecer coisas agradáveis e interesses parecidos em muita gente, mas e o lado que domina a pessoa? Te agrada totalmente? Viver é saber abraçar os pontos positivos e fingir que não existem problemas? Se apoiar na ideia de que após um dia tudo se ameniza. Não é preciso sofrer, chorar e brigar, para notar que se é diferente.
E faz a diferença por nem tudo se encaixar.